sábado, 30 de março de 2013
14-03-13
Escuta, é preciso que tu entendas isso: assim como o óleo não se mistura com a água, por mais que tu queiras, eu nunca serei completamente ele. Talvez nem a metade.
03-05-11
processos
O processo criativo deve ser para o artista um estilo de vida. Penso todos os dias em coisas novas, cenas, intenções investigativas, argumentos. Penso em textos, tintas, em texturas, objetos cênicos, disposições arquitetônicas, devaneios abstratos, piração. Viver sem pensar teatro é menos que viver de fato. Viver sem fazer teatro é viver pela metade. Vejo o artista não como um cristo, mas como um abscesso que precisa ser perfurado. Precisa colocar pra fora todo o pus que a sociedade produz internamente e que só a sensibilidade da arte é capaz de detectar. O ator precisa perfurar esse abscesso existencial pra poder se curar, pra poder respirar e voltar à pseudo normalidade da sociedade epitelio/superficial.
13-05-11
Da Leveza e o peso
Tenho sentido uma vontade de dormir muito grande. Encosto-me e durmo, pisco os olhos e durmo. É como se o sono tivesse a capacidade de colocar todas as preocupações em segundo plano, como se ele de repente fosse um elixir de rejuvenescimento que aos poucos vai me fazendo esquecer tudo de ruim que foi se passando em minha vida até hoje - e fosse capaz de me fazer inocente de novo. Tenho um sono de criança. Um sono daqueles em que se sonha muito sobre coisas bobas e desconexas, que se sonha intensamente e se acorda descansado. Queria acreditar que esse sono fosse o elixir da leveza. Mas talvez essa vontade seja a maior e única ingenuidade desse sono. O homem é como uma caçamba cheia de areia. Por mais que por suas frestas escorram toda a carga no decorrer do caminho a caçamba, mesmo vazia, tem um peso descomunal.
11-06-11
Daqui do lado de dentro
Se eu penso no movimento físico de olhar pra dentro de mim, no movimento dos olhos voltando-se para dentro do meu corpo, esse movimento assemelha-se com o movimento de olhos de alguém que entra em transe, que escapa da consciência do cotidiano pra se hospedar por instantes em um plano além ou aquém disso tudo que se convenciona ser. Quando eu penso nesse movimento e nesse transe que é a viagem pra dentro de mim fica mais claro entender que “eu” sou alguma coisa que não pode ser medida ou comparada com essas palavras todas que se usa pra ler esse mundo de fora, esse mundo que fica pra além dos meus olhos físicos. O olhar, o meu olhar para dentro, é uma coisa que não pode ser medida com os sistemas métricos atuais, que não pode ser expresso com as palavras, sejam de qual idioma forem. Se eu penso nisso tudo, me acho louca por três segundos. No quarto, descubro que loucura é a cegueira interior.
13-06-11
Do peso
Alguns remédios para curar a dor são pílulas de sofrimento. Então o sofrimento natural que seria só do campo da dor em si passa para a cabeça, e para o estômago, e para o corpo todo e para a consciência da finitude. "Você" dói. E a dor faz paralisar. E desanima, e romantiza tudo. E de seis em seis horas o despertador te lembra da hora famigerada. Mais uma pílula de dor, mais um dia de peso. E de pílula em pílula, o corpo, cansado de doer, para. A dor de cabeça para, a dor no estômago para, o peso excessivo do corpo para. E você continua ali, parado. Acostumado. Sem nem saber mais porquê.
Alguns remédios para curar a dor são pílulas de sofrimento. Então o sofrimento natural que seria só do campo da dor em si passa para a cabeça, e para o estômago, e para o corpo todo e para a consciência da finitude. "Você" dói. E a dor faz paralisar. E desanima, e romantiza tudo. E de seis em seis horas o despertador te lembra da hora famigerada. Mais uma pílula de dor, mais um dia de peso. E de pílula em pílula, o corpo, cansado de doer, para. A dor de cabeça para, a dor no estômago para, o peso excessivo do corpo para. E você continua ali, parado. Acostumado. Sem nem saber mais porquê.
07-08-11
Evento e Memória
Que saudade louca que tenho do passado! Não do evento em si, tenho saudade da lembrança.
A lembrança é viva, colorida, rica de olhares, toques e cheiros. O evento não. O evento é chato,
corriqueiro, banal, cansativo, estático. Já a lembrança vai se ajustando ao meu gosto, ao meu
momento, ao meu sabor. Quero voltar a viver o passado através da lembrança, mas não
queria nunca ter que retornar ao evento. O evento está gasto, engavetado, empoeirado.
Morto.
A lembrança é viva, colorida, rica de olhares, toques e cheiros. O evento não. O evento é chato,
corriqueiro, banal, cansativo, estático. Já a lembrança vai se ajustando ao meu gosto, ao meu
momento, ao meu sabor. Quero voltar a viver o passado através da lembrança, mas não
queria nunca ter que retornar ao evento. O evento está gasto, engavetado, empoeirado.
Morto.
18-08-11
Alguém viu a arte passar?
O que é o agora? Onde estou?Se eu 'estou' num estado de espírito, posso ter consciência do agora sem necessariamente estar espacialmente presente e vice-versa. Como posso definir algo de que não estou certa de que precisa de definição de minha parte? Vou falar do vazio e no momento em que digo isso este "vazio" já foi preenchido, violentado por minha idéias e minhas palavras. O vazio só permanece vazio em utopia.
(imagem: frame do filme Melancholia)
04-11-11
Vez ou outra era tomada pelo sentimento de que não merecia aquele amor. Agora não. Agora quero, posso, reivindico.
17-11-11
quero essa distância
preservo essa distância
para que
eu possa ser eu
e você possa ser você.
assim,
saberei que as coisas que eu gosto
em você
são completamente suas
e as coisas que você admira em mim são genuínas.
A distância por si só,
não tem o poder de separar - mas
ajuda a gerar compartimentos
onde cada um pode exer(SER) a sua complexidade.
em você
são completamente suas
e as coisas que você admira em mim são genuínas.
A distância por si só,
não tem o poder de separar - mas
ajuda a gerar compartimentos
onde cada um pode exer(SER) a sua complexidade.
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